Da Série: Professoras/Empreendedoras/Guerreiras!

A história de hoje vem para comprovar que com garra, persistência e determinação é possível sim mudar a realidade que se vive. Muitas vezes, as pessoas acreditam que alguém de uma família de origem humilde não consegue chegar longe, não consegue ser dona do próprio negócio e do seu destino. Hoje eu conto a história de uma menina, filha de um pintor e de uma dona de casa que soube aproveitar as oportunidades que a vida lhe deu! Que graças a visão e o acompanhamento da sua mãe ela pode realizar hoje o sonho de ser professora e dona da sua própria escola de Inglês. E que foi depois de ter sofrido um forte assédio moral na empresa em que trabalhava que ela teve a coragem de jogar tudo pro alto e abrir o seu próprio negócio…

Com a irmã Daniele e seus pais.

Dayane Rita de Souza Cirino, nasceu em Pato Branco em 06/08/86 e seus pais são Idones e Cirlei de Souza e ela tem uma irmã chamada Daniele. Está casada há 10 anos com Valtuir Donato Cirino Filho.  “Na verdade fomos morar juntos em junho de 2008 e oficializamos nossa união em julho de 2011 e temos um filho: Valtuir Donato Cirino Neto que hoje tem 6 anos.”

Ela é formada em Letras Português/ Inglês, com Pós graduação em Ensino de Línguas. Atualmente é aluna do mestrado em Letras pela UTFPR- PATO BRANCO onde está desenvolvendo uma pesquisa a respeito do Ensino de Inglês para crianças não alfabetizadas e também é aluna da Pós graduação em Ensino de Inglês para crianças, pela UEL.

No dia do seu casamento.

E para entender a vida de uma pessoa não podemos olhar somente para o momento atual, é preciso fazer um apanhado histórico para saber com a pessoa conseguiu chegar onde está, e muita coisa importante acontece ainda lá na infância para determinar isso. E sobre a Day não poderia ser diferente, eu quis saber tudo e ela me contou numa tarde de sábado chuvosa e deliciosa:

“Eu sempre fui uma criança feliz, molecona mesmo. Eu adorava brincar na rua, vivia com os joelhos ralados. A gente esperava o fim da tarde quando as crianças saiam na rua pra se reunir e brincar. Na rua a gente jogava vôlei, caçador, andava de bicicleta, patins, pega-pega. Minha brincadeira favorita era Barbie. Brinquei de Barbie até quase fazer 15 anos quando minha mãe falou que eu já estava grande demais para brincar de Barbie. Sempre fui muito estudiosa. Minha mãe sempre exigiu que eu estudasse e me dedicasse aos estudos já que ela e meu pai não puderam estudar. Além disso, como eu era bolsista em um colégio particular, eu não podia tirar notas baixas, isso era o meu maior medo!”

Viagem a Londres.

A Day me contou que sua mãe brinca até hoje que a ela começou a ser professora com 8 anos de idade… na época que ela era bolsista no Colégio Vicentino (naquele tempo se chama Escola Nossa Senhora das Graças) foi sorteada e ganhou um curso de uma escola de Inglês, e logo começou a fazer as aulas e demonstrou muita facilidade em aprender um novo idioma. E como o pai da Day pintava casas de pessoas mais ricas ele sempre voltava para casa com alguma coisa que tinha ganhado, e uma vez ele chegou em casa com um livro de Inglês, bem velho, de uma edição da década de 60. “Eu tenho esse livro até hoje, está lá em Palmas numa estante que eu mostro para os meus alunos. E eu tenho umas anotações nesse livro que fiz lá trás quando tinha 8 anos de idade!”

Com o marido e o filho ainda bebê.

 

E nesse mesmo tempo, por incrível que pareça, a Day começou a dar “aula”! Como o seu sonho era ser professora quando crescesse, ela começou a brincar de escolhinha com crianças menores do que ela, filhos dos vizinhos de seus pais. Ela recém tinha ganhado de seu pai um quadro daqueles de escrever com giz. E assim ela ficou durante um ano dando “aula” para essas crianças nos finais de semana e até já recebia um pequeno “salário”, R$ 0,50 por mês.

Já na adolescência ela até pensou em ser médica veterinária pelo fato de gostar muito de animais, não pode ver um animal na rua que já pensa em levar para casa. Porém, ela sabia que não conseguiria cursar um curso caro e integral como esse. Com 15 anos a Day já tinha se formado no seu curso de Inglês e a própria escola começou a chama-la para substituir algumas aulas. E logo em seguida sua mãe a “incentivou” a fazer Espanhol, mesmo contra a vontade da Day, sua mãe a levava na escola e ficava esperando até o final da aula para ela não fugir. Era temporada de férias escolares, verão, piscina e dessa maneira a mãe dela “ajudou” ela concluir mais um idioma (rsrsrs), foram mais 4 anos de estudo.

Na sua escola de Inglês, Achieve!

Depois disso, ela sugeriu a Day fazer outro idioma! Ela estudou mais 2 anos de Francês que foram interrompidos quando ela foi morar em Palmas. “Esse incentivo foi muito legal por parte da minha mãe, porque ela não teve muito estudo, frequentou somente até a 4ª série, mas uma coisa que ela sempre exigiu de mim e da minha irmã foi estudar, estudar e estudar!”

Então, como ela já estava formada no curso de Inglês, alguns amigos do seu pai recomendaram que ela fizesse o curso de Secretariado Executivo Bilíngue e dentre as opções o curso na cidade de Palmas era o mais viável. “Não era o meu curso preferido, foi um período cansativo, pois eu tinha que ir todos os dias para lá de ônibus e no outro dia trabalhava o dia inteiro. Porém, terminado o primeiro semestre de Secretariado eu falei para minha mãe que não tinha gostado do curso e queria parar, mas ela falou que eu não tinha muitas outras opções que tinha que pensar muito sobre isso, então optei por fazer o curso de Letras. Nessa época trabalhava num escritório de engenharia, que foi o meu primeiro emprego, mas logo fui chamada para trabalhar como secretária na escola de Inglês onde me formei. Ali fazia um pouco de tudo, serviços de banco, atendimento ao público e também dava aulas, foi o “start” para o meu futuro profissional.”

Como nesse trabalho na escola ela conheceu muita gente um dia um pessoal de um banco multinacional a chamou para trabalhar, pois naquela época tinha muitos clientes estrangeiros morando em Pato Branco e eles precisavam de uma atendente bilíngue. Mesmo ela não tendo nada a ver com mundo financeiro ela topou o desafio, participou do processo seletivo do banco e foi chamada para trabalhar. E ali aos poucos ela começou uma carreira nessa empresa que parecia ser muito promissora. O que ele ganhava de salário ela passava tudo para a mãe para ajudar a pagar as despesas da casa e também da faculdade, e além disso sua mãe ainda fazia coisas como pé-de-moleque, cachecóis e etc. para a Day vender no ônibus e arrecadar uma renda extra.

E no último ano de faculdade a Day conheceu o Valtuir, seu marido, então ela deixou claro para o banco que quando surgisse uma vaga na agência de Palmas ela estaria disposta a ser transferida. Nessa época abriu uma vaga para trabalhar no caixa e ela aceitou a proposta, também recém tinha se formado no curso de Letras, mas estava gostando de atuar no mercado financeiro tanto que foi promovida de caixa para gerente da carteira de pessoa física. Paralelamente ela também foi convidada para ser professora de Inglês, Literatura e Redação de um curso pré-vestibular e aceitou.

Tudo estava indo bem, um trabalho estável que pagava bem, o outro trabalho paralelo que a realizava como professora e gerava uma renda extra. Foi quando descobriu que estava grávida que o “seu inferno” (como ela mesmo descreve) começou dentro do banco, não pelos colegas da agência, mas sim pela parte do diretor regional. Quando ele foi comunicado da gravidez da Day, a primeira pergunta que fez para o gerente da agência: “Como você permitiu que ela engravidasse, sendo que agora ela era uma gerente?” E em muitas reuniões com esse diretor ela foi motivo de “brincadeiras” pelo fato de estar grávida.

Porém, a Day sempre foi muito responsável, nunca faltou um dia de trabalho e trabalhou até duas semanas antes de ter o seu bebê. Porém, quando ela estava grávida de 7 para 8 meses um dia esse diretor ligou para ela, cobrando que cumprisse a meta, nem que fosse preciso “engolir” o celular e fazer o filho ajudar. Ela lembra que o marido ficou bravo, ela ficou nervosa e passou muito mal.

Depois que ela ganhou o bebê e terminou a licença maternidade ela voltou bem feliz para o banco, estava tudo tranquilo, continuou cumprindo suas tarefas normalmente. Estava tudo tão bem que ela até pensou em fazer uma carreira internacional no banco e seu marido até começou a estudar Inglês para um dia, quem sabe, acompanha-la fora do Brasil. Porém, não havia nenhuma escola na cidade que tivesse uma turma fechada para adultos iniciantes e então ela começou a olhar as coisas de Inglês em casa e dar aula para o seu marido, e nesse momento voltou a ter vontade de estar em uma sala de aula.

E foi numa tarde… 13 de fevereiro de 2013, que seu filho que já estava com 1 ano e alguns meses, ficou doente, com muita febre… “Eu liguei para o médico, mas ele só tinha horário as 17h, então falei com o meu gerente para começar meu expediente às 8h ao invés das 8:30h para poder sair às 17h. Meu gerente concordou, só que naquele mesmo dia teríamos uma teleconferência com aquele diretor no mesmo horário da consulta. E como eu não estava presente ele fez o seguinte comentário perante todos os colegas (um colega me ligou a noite e me contou): “é por isso que não podemos contratar mulheres, porque mulheres engravidam e é inadmissível que ela esteja mais preocupada com o filho do que com o banco!”

Isso foi a gota d’água para a Day! Na quinta-feira, dia 14 de fevereiro, ela chegou no banco e comunicou ao gerente: “Sim, eu estou mais preocupada com o meu filho do que com o banco, só vim buscar as minhas coisas e você diga para o diretor que o banco me dê a conta, só me deem o que é meu de direito, poderia até entrar com uma ação contra o banco, mas não vou! Eu não volto mais aqui, estou saindo!” No mesmo dia, ela foi até um colégio da cidade que já tinha convidado ela para ser professora de Inglês, a vaga ainda estava disponível e as aulas começariam na próxima segunda-feira. Além disso, ela passou por uma sala que estava para alugar fechou com a proprietária, chegou em casa e comunicou o marido que tinha pedido a conta do banco e que ia montar sua escola de Inglês!

Ela ligou para os pais, fez o comunicado e pediu para o pai que viesse pintar pelo menos a fachada da sala porque na segunda-feira ela abriria a escola! Na mesma tarde seus pais já estavam lá para ajuda-la! Foi comprando os móveis (tudo no fio do bigode como ela mesmo diz!) e aos poucos foi montado sua escola. Na sexta-feira começou a encomendar livros e etc, mandou fazer uma faixa e colocou na fachada da sala, começou a ligar para seus antigos clientes do banco, foi atrás dos alunos e em duas semanas ela começou a suas aulas em 04 de março de 2013. Finalizou seu primeiro ano de escola com 80 alunos! “Se eu tivesse parado para pensar, eu não teria feito nada disso, mas com isso de um diretor falar do meu filho, pelo fato de fazer tudo de sangue quente foi que o negócio deu certo. Esse assédio moral que sofri fez com que eu chutasse o balde e realizasse o meu sonho, que estava ali guardadinho esperando eu ter coragem!”

Hoje, se ela encontrasse esse diretor na rua ela o agradeceria, porque foi esse (por mais que doloroso) o pontapé inicial para seu sonho. Atualmente a escola de Palmas tem 350 alunos e em 2018 começou suas atividades em Pato Branco (em breve uma matéria especial somente sobre a escola).

“Atualmente tenho praticamente 7 trabalhos:

Sou diretora das Achieve Languages Palmas e Pato Branco, atuo como coordenadora pedagógica na Achieve Languages Palmas e Pato Branco. Professora na unidade Achieve Languages Pato Branco. Rootie na rede Achieve. Coordenadora do projeto Bilingue Achieve na escola Atena em Palmas. Coach do programa Educate no colégio Águia em Pato Branco. Consultora pedagógica e comercial na Achieve Languages Clevelândia.

“Meu principal objetivo como pessoa é ser um bom exemplo para meu filho. Quero ensinar ele a valorizar as coisas, tratar bem as pessoas, respeitar a todos e correr atrás dos sonhos que ele tiver. Meus objetivos profissionais são poder inspirar outros professores. Quero que as nossas escolas sejam exemplo. Quero que os professores queiram trabalhar aqui, pela forma que trabalhamos, por ter uma boa equipe, bom ambiente. Quero que meus funcionários sempre lembrem de mim por ser uma boa chefe, uma boa gestora, que respeita a todos.

O que eu mais gosto de fazer nas horas livres é jogar tênis. Jogo tênis a algum tempo, desde adolescente mas nessa época nunca tive condições de treinar. Comecei treinar há alguns anos e é uma das minhas paixões. É uma paixão que apresentei para meu marido que hoje joga também e para meu filho. O que mais me encanta nesse esporte é que a vitória ou a derrota depende apenas de mim. Nos esporte coletivos, a gente pode deixar a bola pro outro, colocar a culpa no outro, mas no tênis não, depende só de mim. É preciso estratégia, concentração. O maior adversário dentro da quadra sou eu mesma. Para mim é uma terapia que me faz muito bem. É um esporte que está sempre te desafiando a melhorar algum golpe, melhorar movimento dos pés, movimento do braço fazendo com que eu tenha que sempre me superar.”

 

E para finalizar, tem sonhos para realizar? “Com certeza, tenho vários sonhos. São eles que nos movem, que nos tiram da zona de conforto. Acho que o primeiro grande sonho pode parecer um clichê mas sonho com um mundo melhor, um Brasil Melhor. Sempre me pergunto em que Brasil meu filho vai crescer? Precisamos de mais honestidade e bom coração para que nosso país possa melhorar. Sonho em conhecer diferentes lugares no mundo para que eu possa trazer diferentes culturas para dentro das minhas aulas. Outro sonho que tenho é fazer uma especialização fora do Brasil e também ter mais um filho.” Finaliza a Day, espero que tenham gostado de mais essa linda história de vida e de sucesso!

3 respostas para “Da Série: Professoras/Empreendedoras/Guerreiras!”

  1. História linda. A Day realmente é uma guerreira. Eu admiro muito essa menina como pessoa e profissional.
    Um grande exemplo para todos nós.

    Margareth
    Diretora Pedagógica da Achieve Clevelândia

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